“Mas o Espírito do Senhor apossou-se dele. As cordas em seus braços se tornaram como fibra de linho queimada, e os laços caíram das suas mãos.” (Juízes 15:14)

Certa vez me disseram que a mágoa é como uma flecha atirada contra o próprio coração, com esperança de que doa naquele que magoou. Eis uma verdade, a mágoa é mesmo uma flecha envenenada que aprisiona, corrói, constrange, enferma… Desprezar o poder destrutivo do cultivar de uma mágoa é uma perigosa inocência, pois, enquanto o magoado remói sentimentos não vencidos, muitas vezes vindos de um passado distante, se tornando cego e irracional, o ofensor, por vezes de livre consciência, dorme o sono dos justos.

Há o registro de uma história no capítulo 15 do livro de Juízes que inspira uma curiosa alegoria sobre o efeito que pode ser causado pela mágoa. A Bíblia relata que Sansão era um juiz que havia se transformado em um herói para os israelitas, era um guerreiro corajoso e de boa aparência, possuía uma força descomunal e um singular talento para viver perigosamente.

Numa das diversas confusões em que se envolveu, comprou uma grande briga com um histórico inimigo dos israelitas, os filisteus. Feridos, os filisteus passaram a buscar vingança contra os habitantes de Israel, e os convenceram a amarrarem seu próprio herói e entregarem em suas mãos, para se livrarem da guerra.

É exatamente neste ponto que repousa a associação ao poder da mágoa, pois Sansão estava a sofrer um traiçoeiro ataque, não mais dos filisteus, mas dos seus irmãos israelitas.

Certamente você já se preparou ou precaveu alguma vez contra possíveis ataques de pessoas que guardam princípios diferentes dos seus, contra estranhos, contra Satanás, contra principados e potestades das trevas… Mas ninguém está pronto para lidar com ataques que partem daqueles que estão próximos, dos de dentro de casa, do parente, do irmão da congregação…

Nada magoaria mais a Sansão, depois de ser constituído juiz sobre Israel, lutar e pelejar pelo povo, ser admirado como herói e guerreiro, ter sido escolhido por Deus antes de nascer para que sobre ele repousasse o Espírito Santo… Depois de tudo, foi obrigado a testemunhar um acordo entre seus irmãos israelitas e seus inimigos filisteus para que fosse entregue amarrado nas mãos do adversário. No entanto, mesmo podendo fugir, resistir, buscar abrigo, ou tentar unir o povo contra os inimigos, Sansão aceitou a provocação dos seus, e concordou em ser amarrado, desde que não lhe matassem.

A mágoa se instala exatamente nessas situações, quando somos feridos por aqueles que nos são próximos. Ninguém se magoa com um estranho, com um inimigo… nos magoamos quando pessoas em quem confiamos nos traem, nossos irmãos nos ferem, nosso familiar se levanta contra nós… isto é mágoa verdadeira! A palavra dita sem sabedoria que fere o íntimo do coração, a quebra de um juramento de fidelidade feito no enlace matrimonial, um comentário maldoso transmitido a um terceiro que frequenta o mesmo ambiente, a expectativa de suporte e ajuda frustrada, a ingratidão… Tudo isso machuca, sufoca, acorrenta, e nos traz pensamentos como: “Depois de tudo o que fiz por essa pessoa…”, ou “como ela teve coragem de fazer isso comigo?”.

O grande problema é que, dado o espanto e tristeza que nos tomam, quase sempre optamos por aceitar a provocação. Isso mesmo, assim como Sansão se permitiu ser amarrado, nos permitimos ser envoltos pelas correntes da mágoa, ao invés de buscar a solução no perdão, na oração, na conversa, em armas espirituais…

Será que essa é a sua situação? Após ser ferido e magoado está há anos sem falar com seu pai; ou está dando ensejo a um inevitável processo de divórcio; vive sem sequer dirigir a palavra a um irmão; ou está deixando de congregar na igreja por causa da esposa do pastor que publicamente lhe humilhou… Os motivos que causam a mágoa são, quase sempre, relevantes, por isso, posso afirmar que você tem todo direito de estar magoado, a tristeza é justa e explicável! Contudo, tem aqui lugar um velho questionamento: Entre estar certo e ser feliz, o que você prefere?

Os filisteus não pediram que os israelitas matassem a Sansão, eles queriam apenas amarrá-lo. Muitas vezes pessoas próximas, sem saber, dão lugar em seus corações ao intento do inimigo de nossas almas, que busca, através dessa maldita associação, apenas acorrentar-nos espiritual e emocionalmente.

Isso mesmo, o propósito do inimigo ao implantar a mágoa não é te matar de imediato, é apenas te aprisionar. A mágoa não nos tira a fé, apenas impede que ela seja exercida, não nos leva a deixar de sermos cristãos, faz apenas que sejamos crentes inertes, não faz você deixar de estar numa igreja, apenas cria uma incompatibilidade com o Dono dela, cuja essência é o amor. Sem nos matar, o inimigo consegue nos dar a falsa sensação de que tudo está bem, mas, em verdade, nos deixa incapazes de lutar, estar em comunhão, iniciar e cultivar relacionamentos, orar, nos desenvolvermos… O que você consegue fazer amarrado?

Aí está você, incapaz de perdoar, de se desvencilhar do passado, de ter uma vida sentimental estável, pulando entre religiões em busca de paz, andando e correndo, mas permanecendo no mesmo lugar… Acorrentado!

[slogan]Como se libertar?[/slogan]

Sansão somente se livrou com a união de dois elementos: O desejo de se libertar e o poder do Espírito do Senhor!

Por mais óbvio que pareça ser, é necessário ressaltar que a libertação depende do desejo de ser liberto. O problema é que esse desejo é expresso através de uma escolha, que, obviamente, possui consequências, uma delas é abrir mão do trunfo de estar certo!

Dizer que perdoa, mas trazer sempre a ofensa à memória e às discussões é mentir para si e para o próximo, não haverá futuro enquanto o passado se mantiver vivo e atuante. Se você tem agido assim, tente me perdoar pela sinceridade, mas você não quer ser liberto, você prefere estar certo! Isso também é uma escolha e também tem consequências…

Há, porém, quem queira se libertar, mas não tem forças. Não foi a força de Sansão que fez com que as cordas se quebrassem, segundo a Bíblia, foi o fato de o Espírito do Senhor tê-lo tomado possantemente, assim, as cordas fortes e novas se transformaram em linho frágil queimado e foram quebradas.

Ser cheio do Espírito de Deus é fundamental para ser liberto. Mas não há como se encher do Espírito sem estar, antes, vazio dos valores mundanos. Como dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo, importa que você diminua e Ele cresça, é preciso abrir mão de ter razão, da vingança, da desforra, do fato passado, e esquecer… Isso mesmo, esquecer da ofensa, assim como Deus lança as nossas nas profundezas do mar!

Tenho uma linda sobrinha chamada Alice, ela é uma criança brilhante, apaixonada por desenhos animados. Há um especial que por cerca de dois meses ela assistia três vezes por dia, chegando ao ponto de decorar as falas do filme, falar e cantar com o sotaque da personagem principal (cantava a música tema do filme em português, inglês e em malaio). Em suma, ela praticamente se transformou na Princesa! O relacionamento com Jesus é bem parecido, ler a Bíblia e orar com a mesma devoção de uma criança apaixonada pelos desenhos nos deixa muito parecidos com o personagem principal do livro, Jesus! A essência de Jesus era o amor, por muito amar, ele conseguia perdoar até quando estava sendo crucificado.

Pelo poder do Espírito e pelo desejo de ser livre, Sansão se libertou. 

Já livre, ele avistou que ali perto havia morrido um animal, um jumento, e os ossos daquele animal foram a arma para que ele, sozinho, ferisse e vencesse mil filisteus!

Ao se encher do Espírito, você se lembrará de outro animal que também morreu, um Cordeiro, apanhou mudo, sem ter culpa alguma foi traído, ferido, magoado, de uma forma muito pior do que a quem você sofreu… Jesus é esse Cordeiro.

Quando fecho os meus olhos e penso nesse animal morrendo, eu logo associo ao perdão. Penso nos xingamentos e nas chacotas que ele suportou… penso num soldado batendo nele pelas costas, sorrindo e dizendo “profetiza quem te bate agora!”… penso na sede que ele sentia e no gesto “bem humorado” dos soldados que lhe deram vinagre para beber… penso nos seus melhores amigos dizendo que não o conheciam… e logo depois vejo o ofendido orando pelos ofensores dizendo, “Pai, perdoa eles, pois não sabem o que fazem!”.

A morte desse animal me dá forças para perdoar meu irmão! Mais do que isso, me dá forças para vencer mil filisteus, um após outro! Mil sentimentos que aprisionam, mil lembranças do passado, mil erros da minha esposa, mil fofocas que inventaram contra mim… Assim como Sansão, posso estar sozinho, mas, tomado pelo Espírito, me sinto maioria!

A flecha atirada não volta atrás, cobrar do ofensor pela mágoa causada é executar uma dívida impagável! Faça já um bem a si mesmo, se esvazie, esqueça o que passou, passe a viver, se encha do Espírito de Deus e as correntes da mágoa serão como linho queimado e cairão, lembre-se da morte do animal e entenda já que quem foi perdoado, perdoa. Após isto, tenha liberdade, pois, “se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres”! (João 8:36)

Em Cristo.

Saulo Daniel Lopes
saulo_daniel@hotmail.com

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